Eu passei a minha vida toda em uma enganação. Meus pais me enganavam, não me deixaram ver como um amor realmente é construído. O que eu vi foi um ódio, um rancor, e uma eterna luta por se manter vivo. Sobrevivência.
Depois disso, passei por um relacionamento abusivo, o qual eu fui enganada de cabo a rabo. E por muito tempo da minha vida, junto com esse dito cujo, eu me enganava, pensando que estava tudo bem, que eu deveria mesmo me entregar totalmente ao relacionamento, que sem ele eu morreria. Sobrevivência.
Eu sobrevivo a todas essas mentiras, dia após dia, em uma eterna desconstrução de valores e arquétipos sociais. Eu sobrevivo, dias bons, dias ruins, dias. Eu sobrevivo me apoiando em pessoas nas quais eu confio, e que admiro por compartilhar esta luta pela sobrevivência.
Eu sobrevivi, até reencontrar amigos, encontrar um novo amor, e o mais importante, até me encontrar - parada ali, em um canto da estrada, sem me mover, sem acreditar que algo poderia dar certo, sem acreditar no que eu poderia fazer de bom, sem acreditar que eu chegaria em algum lugar. Peguei essa menina, baixinha, que fala pelos cotovelos e gosta de dividir todas as experiências da vida com quem ama, dei-lhe uma sacolejada, baguncei o seu cabelo, mandei olhar pra frente e empurrei com toda a força que eu podia.
Ela andou uns metros, parou, olhou pra trás e não havia ninguém mais parado no meio do caminho, ela mesma se fez levantar, do seu lado, haviam mãos amigas lhe auxiliando nessa dureza que é a vida.
Sobrevivência.
As vezes, em quesitos sociais dentro de um âmbito capitalista, apenas sobreviver parece pouco, chega a dar dó, existe uma obrigação em superar as expectativas do que designa-se viver. Devemos viver e ter uma excelente formação, saber no mínimo três idiomas, ter a vida social perfeita, discutir política como se fosse fácil entendê-la, conhecer vários lugares e culturas, vestir o que mandam, comprar os produtos de última geração que obrigatoriamente deve se ter, ter uma família e um negócio bem sucedidos. Não.
De que adianta superar as expectativas da noção de vida imposta pela sociedade se por dentro estamos presos em um profundo abismo, vazios, usados, destruídos? A sobrevivência é a arte a ser almejada, a sobrevivência significa valorizar a luta diária de levantar da cama, e passar por um dia rodeado de imbecilidade, preconceitos, futilidades que essa vida imposta a nós gera, e melhor, passar por esse dia e ligar o foda-se para estas opressões - isso é sobreviver.
Devemos sobreviver, e não deixar que a vida nos engula por completo. Sem sobreviver, como vamos lutar contra essa mesma vida quadrada?
Sobrevivo, luto, e assim continuarei.
A merda nunca deixará de existir, o segredo é sobreviver à ela.
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
Carta 05/11/2016
Eu acho que estão me enganando. Falando assim parece até paranoia, mas a verdade é que já cagaram demais na minha vida, então sinto cheiro de merda de longe. E, quero muito estar errada e ser só mais um surto de insegurança - algo pelo qual serei perseguida pelo resto da vida, mas começo a perceber algo estranho no ar, o que me faz logo pensar: cheiro de merda.
Eu acho que preciso de ajuda.
Passei dois dias em casa, sem pisar na calçada. Meu quarto virou minha caverna.
Estou desacreditando no tal "final (que na verdade seria começo) feliz".
Você é muito lindo, muito amoroso, muito simpático, muito perfeito para ser verdade - só pode ser mais um truque do universo louco. A verdade é que acho pouco provável que nasci para a felicidade.
Tem gente que nasce para ser feliz, que tudo o que faz parece ter um ar feliz, uma aura feliz.
Minha prima é uma dessas pessoas - ela tem uma vida feliz, e parece que foi fácil, apesar de eu saber que foi um pouco difícil, mas parece que mesmo a dificuldade dela é fácil de se resolver.
Eu não tenho a disposição necessária para ser feliz. Acho a felicidade puta difícil de sentir, e quando eu sinto, passam-se 30 minutos e já estou pensando "epa, se eu tô feliz tem algo estranho, qual merda está se aproximando?"
E eu realmente estou feliz com você, mas e o medo de dar merda? Tá aqui, cutucando meu estômago. Quando eu finalmente consigo falar sobre um medinho e coisa e tal, você me responde com "deixa de bobeira, precisa disso não". Não faz isso meu lindo! Pior resposta que você poderia me dar!!!
Pega no meu rosto, decifra o que eu demorei 15 minutos para soltar em apenas uma frase, descobre meus medos, explica delicadamente que não tem motivos, me abraça, mostra que a doida sou eu de ficar com medo de tudo.
Você não fez isso, e foi embora, e eu fiquei aqui, vestida com as roupas que você esqueceu, descabelada, fumando loucamente e pensando: como me preparar para mais uma porrada da vida?
Tenho que terminar uma monografia, tenho que ganhar muito dinheiro em apenas 365 dias, e terei que largar tudo aqui nessa cidade e ir para outras terras, em busca de algo que é mais difícil do que os planos de 2010. E você se meteu na minha vida, se meteu nos meus planos, me deu uma força do caramba de seguir com todas as mudanças que eu continuo achando ser a solução para que eu me encontre de alguma forma, longe dessa casa e de tudo o que ela traz (e longe do meu irmão), mas e aí? Se você me deixar no meio do caminho, como já me deixaram antes? Eu não posso arregar - ouviu? Eu não posso arregar! E hoje, nessa noite estranha, sinto que quase arreguei....
Eu estava bem, não estava ótima, estava ok, e você apareceu - fiquei ótima, excelente, leve, iluminada por toda a alegria que você gerou e aí "puft": você foi pra longe.
Você aqui do meu lado eu já fico toda balançada, me equilibrando entre as inseguranças da vida, apoiando os pés sobre os momentos sensacionais que temos juntos.
Eu sei que você é maravilhoso, mas já apanhei demais da vida, e tem coisa que ainda machuca.
Eu só queria paciência, porque eu te amo, eu te amo mesmo. Eu não sou uma pessoa que consegue amar e desamar em questão de dias, tudo demora um tempinho para curar, até porque algumas experiências o amor vai embora, mas fica uma tristeza, uma mágoa, uma angústia....
Em mim ficou o medo de tudo se repetir, ou de ser até pior. A verdade é que eu não sei se aguento mais mentiras, mais enganações, mais traições... já sangrei muito por enquanto. E ainda dói, ainda sinto aquela dorzinha, que mesmo quando sabemos que a ferida está curada, permanece em dias frios.
Essa carta não é para você, é para mim mesma. Eu preciso aprender a confiar no amor que você me dá dessa maneira tão linda. Eu preciso parar de ter medo, ou serei engolida por ele.
Eu te amo.
Não desista de me aquecer.
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